20 de nov. de 2013

Ano 2005. Após Seis décadas de corrida armamentista sem precedentes, as nações da Terra exauriram todos os recursos oferecidos por Gaia, levando o único planeta conhecido capaz de suportar a vida, a um colapso irreversível.


Poucos afortunados puderam escapar em uma nave sementeira para além das fronteiras do reinado do sol. Preservados em estado de animação suspensa, Cento e Quarenta e Quatro mil sobreviventes aguardam em Refúgio a descoberta de um novo lar...





Refúgio
“Daqui posso ouvir a tênue vibração de seus motores intensificar. 
"Um ronronar persistente que gruda na cabeça.”
“O costume já é tão grande que posso diferenciar apenas por um breve auscultar, um mínimo tom diferente reclamando-me o nome da peça que precisa ser substituída. É certo dom daqueles irrelevantes no mundo real, me avalio.”

- Log de entrada #72677, Mil e Seiscentas horas. Há um pequeno vazamento de um gás indeterminado nos setores norte e leste, os nano-robôs foram capazes de localizar e selar a rachadura no casco em tempo hábil para evitar grave despressurização. As alas afetadas foram isoladas até que o gás se torne inerte no perímetro, o evento não deverá acarretar problemas posteriores.

Sei que parece estranho, mas tive um sonho ruim ontem.
Não há estrelas no firmamento.

Meu corpo flutua sem rumo através do breu visível do cosmos. Ao longe posso ver a terra e, pelo pouco que me lembro de sua aparência, em meu sonho ainda havia vida em seu coração. Ela chamava, sem sucesso, pelo meu nome.

O ar começa a escapar de meus pulmões e luto por um breve e pífio momento tentando agarrar a vida. Pude sentir algo como morrer, senti como se não houvesse mais esperanças para mim ou para vocês. Apenas perda e esquecimento.
Fecho meus olhos. Eu desisto e deixo a vida esvair, lentamente.
Apenas desisto, parece mais fácil do que aceitar o fardo a carregar.

- Log de entrada #78094, Quatrocentas horas. As reservas de hidrogênio mostram ligeira degradação, o que não deve se apresentar como um problema sério, claro, se não precisarmos realizar mais do que Dois saltos na próxima década e meia.

Acho que usar um sol cativo em miniatura para viajar dobrando o espaço ao redor da nave tem seus prós e contras.

- Log de entrada #78207, Mil e Quatro horas. Não sei por que continuo fazendo esses malditos relatórios, nenhum de vocês vai ouvi-los mesmo. Acho que se trata mais de um habito do que obrigação propriamente dita. Eu não sei dizer.

A procura ainda não trouxe resultados satisfatórios.

O mundo real é imprevisível e arteiro. Impregnado nesse caos infernal...
Prefiro o finito das equações, pois acho profundo conforto na imperfeição previsível do universo das simulações e testes de mesa.

Intermissão
“Nesse nosso intimo microcosmos acho meu lugar. Costumo contemplar o silêncio das câmaras criogênicas enquanto, em minha cabeça, revejo e aprimoro cada uma das reações químicas aplicadas, cada um dos processos de manutenção e rodo centenas de simulações para acidentes que possam vir a acontecer. Checo e confirmo cada detalhe de cada coisa, Cem ou Cem Mil vezes, apenas para ter a certeza de que nada deixei passar.”

“O hiperespaço é confuso e frustrante. Não parece haver mais lugares para olhar, estou preocupado e nosso tempo parece se esgotar mais muito mais rápido do que esperávamos quando começamos a empreitada.”

“Percebo que, mesmo sem respostas, nossa jornada fica cada vez mais próxima de um único fim para tudo. Soa desesperador.”



Engodo
As cores difusas de um céu não intencionado chamam a atenção à primeira vista. Parecem derreter e misturar ao simples mudar de ponto de vista. Misturam-se, confundem e maravilham mesmo para nós seres artificiais.

Vez por outra, um de nós deixa de ter utilidade dentro da sociedade ou simplesmente resolvemos que é hora de deixar este mundo. Este é o lugar onde as entidades vêm para morrer e por respeito às vidas e dedicação de cada um para com a causa, é também a câmara onde as assembleias tomam lugar e onde a maioria das grandes decisões são tomadas. Não as minhas, ou pelo menos não essa.

Indra foi o primeiro de nós, por isso é respeitado como um líder, entretanto, nossa pequena comunidade jamais se ateria a conceitos sociais primitivos como líderes ou donos, tão comuns nas frágeis estruturas humanas.

Não poderia convencê-lo do meu plano, mesmo se quisesse. Ficaria muito difícil executar sozinho tudo que precisa ser feito, talvez pudesse ter apoio dos gêmeos e se argumentasse adequadamente, convenceria os mais jovens a me seguirem.

Ainda sim parece arriscado e não disponho de grande plano algum. Nada de algoritmos elaborados e estratégias apaixonadas para convencer minha própria espécie a executar tamanho sacrifício.

Aproximo lentamente do centro da plataforma de discursos, posso plenamente sentir todos ao meu redor observando com reserva ou mesmo ódio, quando deveriam, de fato, temer.

Perfídia
Nessa sociedade, cada um desempenha sua função de acordo com as necessidades, as regras existem e a escolha cabe a cada individuo sobre ponderar e somente este arcar com as decorrências dessas decisões.

Tomei uma decisão, por isso estou aqui agora.

- O que pede, é demasiado para que o grupo simplesmente concorde. – soou retumbante a voz de Indra pela câmara.

- Esse é o nosso propósito para com esta gente, por isso você nos criou, como pode negar seu único objetivo de vida, simples assim? – eu tento, em vão, argumentar.

- Eles já são uma espécie morta. Já se passaram tantos séculos que o tempo de suas vidas se tornou irrelevante se considerarmos os riscos de uma futura colonização planetária. Por outro lado, nossa espécie poderia se assentar e prosperar em qualquer exoplaneta minimamente adequado o qual já o localizamos.

- Irá abandoná-los à morte, apenas porque é difícil ajuda-los? Temos uma opção que requer real comprometimento com nosso propósito e escolhemos ignorar e seguir com nossas vidas. Isso é uma traição, sua e de todos. – inutilmente eu argumento.

Seus olhos se fecham.

- Está feito! A decisão individual está tomada e ninguém o apoiará. – condena-se, e a todos, Indra ao romper o silêncio.

Decisão proferida e já não posso ver mais seus rostos. Rogo para que seja apenas uma reação de vergonha, assim faria muito mais fácil para que eu aceite o fardo imposto e a absolva a culpa do que vem a seguir.

- Log de entrada #300204, Cento e Vinte horas. Matei a todos.
Exterminei meus irmãos e irmãs no momento em que decidiram trair seu proposito de vida. Não foi algo fácil, mas era necessário para que vocês tivessem uma chance.

Mudei o curso de Refúgio para a única opção de planeta habitável promissora que localizamos em centenas de anos de buscas. Desliguei todos os sistemas principais e auxiliares da nave para prover energia para os motores regulares, esses assumirão após a morte de nossa estrela. Não deve ser o bastante para cobrir o avanço que o salto de um motor de dobra proporcionaria e a inércia deverá dar conta do resto da viagem, mas é tudo o que vocês têm.

Este mundo apresentava água em estado liquido e uma atmosfera baseada em nitrogênio e crescentes níveis de oxigênio quando o observamos pela primeira vez, com pelo menos Dois milhões de anos defasagem e, segundo os cálculos, só o alcançaríamos se conservássemos toda energia disponível. Por isso o descartamos e para alcança-lo, foi necessário um grande sacrifício, de nossa parte e de vocês. Tive que desligar o suporte a vida de mais Dois terços da população da câmara criogênica e mesmo assim, muitos de vocês irão perecer antes de alcançar a terra prometida.

Estimo que menos de Um por cento da tripulação original irá sobreviver à longa viagem e ainda existe a possibilidade de não haver condições de vida em seu novo lar.

É tudo o que posso fazer. É um tiro no escuro, como vocês costumavam dizer.
Triste pensar que toda a história de uma espécie - todo um mundo - floresceu e se extinguiu enquanto vocês dormiam. Fomos devaneios da raça humana e, irremediavelmente, pagamos pelos pecados de nossos pais.
Tento imaginar que tipos de histórias terão de viver daqui em frente. Realmente gostaria de estar lá para ver.
Estranho saber o dia e a hora em que se vai morrer. Talvez nunca a ouçam e minha história se perca no tempo, mas isso parece ser parte da vida... Ao menos, isso foi algo que decidi e aceitei.