Parte-1: algo que falta
Lembrou-se que terminou de dobrar o último lençol que acabara de retirar do varal.
Lembrou-se que verificou o gás: fechado.
Lembrou-se que as vasilhas de ração e água do gato estavam cheias.
Lembrou-se que as torneiras estavam bem apertadas.
Lembrou-se que televisão, geladeira e demais aparelhos estavam fora das tomadas.
Lembrou-se que janelas foram fechadas.
Lembrou-se que a porta dos fundos foi trancada.
Lembrou-se que colocou sacos plásticos entre as meias e as botas antes de calçar – apesar de custarem caro, encharcavam como o Vale em dia de chuva, ‘mas eram sem dúvida lindas’, pensou.
Lembrou-se que a mala estava perto da porta – aquela com rodinhas, que não cabem nada dentro, mas sua mãe insistiu em comprar, pois combinavam com as botas.
Lembrou-se que a bolsa estava sobre a escrivaninha próxima à saída, mas esta não combinava com nada – ‘assim como ele’, pensou -, sempre uma surpresa, sempre fora da hora marcada, não existe um verbo combinar no vocabulário daquele homem.
Lembrou-se que faltava algo.
Não se lembrava bem do que era.
Não um símbolo, não algo especifico, apenas uma sensação desse Um item inominado faltando no cenário.
Todos passaram por isso uma vez ou outra: falta algo, não sei dizer o que é de fato; situação de certo esperada antes de algum acontecimento antecipado, algo como esse velho ‘tenho de sair, mas não recordei o que esqueci até a hora em que precisei’.
Concentração tal segurando a maçaneta. Tentava recordar-se, enquanto mordiscava a boca, qual era o item faltante – concentração que fora apenas quebrada com as fortes e precisas Quatro batidas à porta de madeira pintada de branco: ‘Deve ser ele! -’ pensou consigo.
Lembrou-se que mesmo estando com raiva pelo atraso, não deveria ser rude – ‘Era de sua natureza chegar atrasado, fazer habitual cara de bobo ao pedir desculpas, sorrindo desajeitado com seu cabelo de penteado despenteado/arrepiado;
'Sempre a barba rala por fazer e furinho no queixo que adorava’, esforçou-se nesses detalhes ao abdicar de uma tola reclamação em troca de abrir um caloroso sorriso, obviamente acompanhado de um forte abraço e o mais doce dos beijos para receber o visitante à entrada.
Abriu a porta em breve euforia:
- Quem é você?
Parte-2: desconversa
Encarou por alguns segundos aquele senhor parado em frente à sua porta.
Precisou de algum tempo até ter plena certeza de que o rosto do outro lado da porta não lhe era familiar.
- Lhe fiz uma pergunta, por que não responde?
- Não pareceu ser a pergunta adequada. – respondeu-lhe o velho homem de voz levemente anasalada.
De imediato pôde perceber a maneira pouco usual deste senhor se vestir: terno branco, luvas brancas e chapéu combinando. Sua bengala era de mogno, marrom como os sapatos. Bigode e cabelo brancos, combinando com o resto do conjunto. Pôde notar logo ao fundo contrastando com a figura parada em sua porta um céu triste de cinza, parecia que choveria logo, mas isso não pareceu importante.
- O mais adequado – continuou o misterioso visitante – seria perguntar o que eu sou.
- Algum maluco, de certo! – Interrompeu lhe de imediato, em um tom de deboche.
- Fala o que lhe vem à cabeça, como sua mãe. – observou-lhe sorrindo o visitante.
- O senhor conhece minha mãe?
- Eh... – deu de ombros – para simplificar a resposta por hora, sim.
Desconcertantes segundos cercaram a cena, sem palavras para poluir o quadro.
- Então, como posso ajudar o senhor? – perguntou-lhe, já sem um semblante de sorriso sequer esboçado.
- Sim, já que perguntou, podemos começar por... – retirou uma folha de papel do bolso a qual continha algo escrito similar a uma lista – “Como tem sido seu dia até agora?”.
Obviamente não compreendeu.
- O senhor é algum representante do censo ou de alguma igreja ou entidade beneficente em busca de doações? Devo-lhe avisar que, infelizmente, estou de saída, mas ficaria feliz em lhe ajudar em alguma outra hora qualquer, no momento não poderei!
- Entidade? – resmungou o homem – É, acho que algo assim explicaria melhor... Precisaria consultar a lista de fato, jovem. Normalmente chamamos de Firma, como em ‘lá na firma, nós...’
- O senhor está com algum problema, precisa que eu chame alguém para buscá-lo?
- Não, não é isso. É eu acho que... Talvez tenha lhe confundido um pouco, por favor, entenda que não é habitual realizar esta tarefa que fui incumbido hoje... Como posso lhe explicar? – fez uma pequena pausa para retirar o chapéu e coçar a testa – Veja bem, não é todo dia que temos oportunidade de encontrar alguém como você.
Neste instante, começaram a cair os primeiros e fracos pingos da chuva.
- É. Agora está chuviscando. Incomodaria se entrasse para evitar a água? – perguntou-lhe o velho homem.
- Eh... Não sei se realmente devo, entende? – hesitou, ainda sim pressentia algo de sincero e seguro no sorriso.
- Compreendo. Mas não se preocupe não lhe farei mal, pelo contrário, eu vim aqui lhe ajudar.
- Claro. – lembrou-se que logo ele deveria chegar, então não haveria perigo em abrigar o velho senhor da chuva por algum tempo – Entre.
Agradeceu e fechou a porta detrás de si, pendurou o chapéu no chapeleiro, como esperado, naquela data.
- Parecia ser uma bela casa. – observou o velho senhor, olhando em volta.
- É... Agradeço o elogio... Eu acho.
Desconcertantes segundos voltaram a cercar a cena, eles são chatos.
- Gostaria de algo para beber?
- Um cafezinho, seria perfeito.
- Está um pouco frio, espero que não se importe. É que, já estava de saída...
- Ou, não, de modo algum!
- Então, o que o senhor faz da vida? É aposentado, imagino.
- Vida? É, acho que pode ser definido assim... Bem, eu faço as visitas.
- Hum... – balançando a cabeça condizente, erraticamente.
O velho senhor provou um gole do frio café que fora lhe servido. Sacou sua caneta do bolso e, apertando os olhos, tornou a olhar a folha de papel que trazia a mão, rabiscando-a.
- Bem, creio que poderíamos continuar o que acha?
- Continuar com o que? – perguntou ao velho, sem compreender.
- Devo pular algumas questões da lista – simplesmente ignorando a pergunta – É que realmente não posso definir quanto tempo nos resta na visita devido sua condição única. De fato é um caso muito, muito especial... Mas... – trouxe a mão ao queixo inquisitivo – Ah, sim, claro: O que você entende sobre átomos?
Parte-3: lágrimas
- Como assim? – perguntou-lhe aos risos.
- Talvez deva começar com o básico, bem, como lhe disse, seu caso é muito especial, por isso estou aqui para lhe ajudar.
- O senhor fica falando sobre meu caso, minha situação e não estou compreendendo nada. Olha, eu estava de saída e esperando alguém que logo chegará. Sem ofensas, acho que talvez tenha sido uma má ideia abriga-lo da chuva.
- Realmente, você não entende. Não há ninguém vindo.
- Que história é essa? – lembrou-se do fogo.
- Apenas não consegue se lembrar de tudo ainda...
- Não compreendo... – lembrou-se do sangue.
- É natural, se é que é permitido usar um termo banal como esse em sua situação...
- Minha situação? – lembrou-se da dor.
- Bem, agora deve complicar um pouco, mas serei o mais sucinto e simples possível.
- O senhor é maluco? – lembrou-se de como é transcender: pôde permitir agora que seus olhos enchessem de lágrimas.
Comecemos com o básico, então. Como diziam por aqui? Quais eram suas crenças? Não as deixe de lado – saiba que não pretendo interferir nisso - apenas ‘desligue-as’ por algum tempo para embasar o que preciso lhe explicar, certo?
Pode chamar isso de leis da natureza, filosofia da física quântica, regras operacionais de Deus ou mero acaso – caso este seja aplicável.
Tudo no seu universo – isto é, você, esta casa, esta rua e incluindo este mesmo, cedeu à entropia. Em um processo extremamente lento – do ponto de vista humano – cada átomo, cada partícula existente foi rasgada e apartada da existência, por assim dizer, graças a uma força que a tudo permeava, a qual, desde o momento de estreia deste mesmo, esteve lá para expandi-lo em todas as direções e a criar tantas maravilhas quanto possível em seu breve tempo de vida.
Tudo que já viu ou todos que conheceu foram-se há muito tempo.
Logo não mais havia a luz.
Logo havia o nada - em seus termos - uma sopa energética potencialmente grandiosa – nos termos das leis da natureza, filosofia da física quântica, regras operacionais de Deus ou mero acaso – caso este seja aplicável.
O que veio a seguir, não é muito simples de se entender, porém é muito fácil de explicar: onde há energia uma partícula pode ser espontaneamente trazida à existência, assim aleatoriamente. Logo, temos fé que estruturas mais complexas como átomos podem também ser gerados, assim espontaneamente.
Como costumamos dizer na Firma, átomos são coisas fascinantes, dê-lhes apenas alguns bilhões de anos e eles são capazes de realizar coisas fantásticas.
Com apenas o tempo necessário – e este é ainda mais espantoso -, uma molécula pode ser trazida à existência, assim do nada. Logo poderão ser espontaneamente formadas estruturas mais complexas como uma célula, um ser vivo inteiro e até cenários inteiros de ambientes complexos, como esta casa ou o café frio que está nesta xícara.
Por um mero capricho da existência, as histórias e universos tendem a se repetir, um após a morte de outro, infinitas vezes. Toda uma gama de histórias inéditas ou reprisadas a serem contadas a um público que sequer existe. Toda sua vida, tudo que pode se lembrar, já aconteceu antes, apenas não consegue recordar de tudo.
- Eu lembro-me agora. Lembro-me do dia em que morri. Eu morri, não foi? Há muito, muito tempo... – pôde sentir um coração disparar aflito em seu peito.
Deu-se ao trabalho de fazer uma pausa, graciosamente enxugou suas lágrimas com as costas das mãos e suspirou.
- O que significa, sou um fantasma?
- Apenas filosoficamente, mas não se apegue muito a isso. – disse o senhor segurando-lhe a mão, dando-lhe suporte.
- Eu não compreendo... O que isso quer dizer? Se já morri, eu não existo? Não sou real? Sou uma cópia?
- Não, pelo contrário, é tão real quanto eu, essa casa ou ar que respiramos; você apenas é uma versão diferente de pessoa existiu em um passado incomensuravelmente distante. Todas suas memórias estão ai, não é algo como uma mera cópia, é apenas você de novo.
- Ainda não compreendo. Meu corpo não está vivo?
- Diga-me: está com fome?
- C-Como assim?
- Apenas responda, sim ou não. – insistiu enfático o senhor.
- Sim. Um pouco.
- Então pronto. A fome é maior prova de que alguém está vivo. O que é mais representativo à vida do que a necessidade de comer, processar nutrientes e seguir em frente?
- Com certeza é maluco!
Levantou-se afastando a xicara de café frio que lhe fora servida; pegou seu relógio de bolso preso por uma confusa corrente de aço trançado. Observou.
- Bom, melhor antecipar. Creio que poderei terminar de preencher seu formulário depois. Foi uma excelente companhia, agradeço o café, mas já vou indo, parece que a chuva me dará mais algum tempo até que possa sair daqui.
- Como assim, o que faço agora? O senhor disse que veio ajudar.
- Sim, claro: vim lhe ajudar a nos ajudar a ajudar a todos nós.
- Hã?
- Expliquei sobre sua situação, até provei do seu café, veja que compreensão é base de toda boa conclusão, e agora você compreende, não? Mas, bem que poderia até mesmo lhe dizer como prosseguir...
Causou-lhe um leve esboço de conforto-esperança ao proferir tais palavras.
- Mas essa não é minha função. Apenas faço as visitas, pergunto as perguntas, explico o estado das coisas, preencho o questionário e - em raras e fascinantes ocasiões como essa - trago o item faltante do cenário ou ajudo a trocar pneus furados.
- Como assim?
- Trocar pneus. É muito cansativo e, quando acontece, geralmente os cenários são quentes e secos e, é claro, seus “inquilinos” não tem a chave de roda mais adequada. Estão sempre sozinhos no meio do ‘nada’, logo, não tenho opção.
- O que quis dizer sobre esse tal item faltante, estava com isso na cabeça antes de aparecer. De que está falando?
- Aqui estão suas chaves. Era disso que não se lembrava – entregou-lhe o reluzente molho de chaves.
- O-o quê?
- Realmente foi uma experiência única conhecer alguém como você, mas receio que deva partir, infelizmente.
Pôs-se de pé estendendo a mão em um cordial e desamparado adeus.
Parte-4: assuntos pendentes
Um súbito e sonoro estrondo foi ouvido no telhado da casa.
- O que foi isso? – perguntou-lhe espantado o velho senhor.
- Foi o gato.
- Um gato? – Questionou espantado - No telhado?
- Sim, entrou lá quando me mudei para esta casa, ou minha versão original se mudou para a versão original desta casa e vive assim desde então.
- Você cria um gato no telhado? – espantado questionou o senhor.
- Sim. Ou criei... Fica realmente difícil saber em qual tempo devo conjugar os verbos nessa minha situação. Desculpe o tom de reclamação, mas acho que o senhor deveria ter sido mais... Elucidativo!
- Sim, mas e o gato? É real?
- Dou-lhe comida e água de vez em quando. As vasilhas voltam lambidas.
- Não foi isso que quis dizer, veja: como sabe que é um gato de fato? Já miou alguma vez?
- Pensando bem, não o ouvi miar...
- Poderia ser outra coisa que não um gato, considerando a situação. Precisamos tirá-lo de lá, imediatamente!



